A ADRA continua a responder às necessidades dos somalis afectados pela seca que se fez sentir no Leste de África. Estima-se que cerca de 250 mil Somalis continuam em risco de morrer à fome e as estatísticas da GAM (Global Acute Malnutrition) mantêm-se perto ou acima dos níveis de fome. Através do escritório local do país, a ADRA continua activa na distribuição de comida, água e bens não alimentares, reabilitando furos de água e promovendo actividades de saneamento básico na Somália Central e na Somalilândia.
Embora os níveis de segurança alimentar tenham melhorado ligeiramente, baixando o IPC (Integrated Food Security Phase Classification) da Fase 5 para Fase 4, prevê-se que a fome se prolongue até final do presente ano, nomeadamente nas áreas agro-pastorais do Médio Shabelle, situadas no sudeste da Somália.
O Sul da Somália, e grande parte da região Este do Corno de África, continuam a receber chuvas que excedem a acumulação média de anos anteriores. No entanto, o aumento das chuvas trouxe consigo a elevada ameaça de inundações, o aumento do risco de propagação de doenças, e ainda a dificuldade acrescida no que toca à entrega atempada da ajuda humanitária.
Segue-se uma entrevista conduzida pelo responsável de relações públicas da ADRA Somália ao Coordenador de Emergências Interino, John Ogege, sobre os trabalhos actuais no terreno:
Regressou recentemente de um exercício de distribuição de bens alimentares na região de Banadir – uma das regiões onde mais se fez sentir a seca; como foi essa experiência?
Baseado no exercício de distribuição, diria que a situação em Banadir é de necessidade extrema. As pessoas desalojadas têm pouco ou nenhum acesso a alimentos, água potável, abrigo ou cuidados de Saúde. Subnutrição, diarreia e casos de sarampo têm sido reportados, e alguns destes casos levam mesmo à morte, especialmente entre as crianças. É importante frisar que a situação se repete em várias regiões da Somália. Os desalojados nos vários campos em Banadir andam longas distâncias para chegar até aqui onde se depararam com desafios ainda maiores incluindo o assédio. Casos de violência de género, tais como a violação, também foram reportados. Houve um desalojado que andou com a sua família desde o distrito Dinsor (Região de Bay) para Mogadishu – uma distância de quase 300 km, e esta ocorrência não é invulgar entre desalojados. Todos eles, nestes campos, estão desamparados e desesperados – eles precisam de comida e água, assim como de cuidados médicos para os mais afectados pela crise.
A Somália sempre passou por dificuldades ao nível das secas. Porque é que esta seca em particular é diferente daquelas vividas anteriormente nesta região?
Secas recorrentes têm sido comuns, mas estas continuam a agravar a já complicada situação humanitária na Somália. Juntamente com a insegurança sentida (devido aos sucessivos conflitos políticos), esta situação de seca minou e enfraqueceu profundamente a resiliência da população e aprofundou o sofrimento das comunidades mais vulneráveis. No seguimento dos efeitos da persistente e recorrente seca na Somália, a recente “Jilaal” (época de seca) tem sido particularmente dura, com a previsão de que as condições de seca persistam durante quase 9 meses. A curta época de chuva “Deyr” (Outubro a Dezembro) falhou em 2010, e consequentemente em 2011, as chuvas “Gu” (Abril a Junho) também falharam na maior parte das regiões. Como consequência, o número de somalis em necessidade aumentou, tal como o impacto da seca continua a afectar o Leste de África.
As chuvas recentes vieram de alguma maneira ajudar a situação?
Embora as chuvas sejam um alívio bem-vindo, trouxeram um novo desafio – as cheias. Na passada semana, choveu torrencialmente na Bacia do Rio Juba no sul da Somália. Várias zonas no sul continuam a relatar enchentes, principalmente nas regiões mais baixas de Gedo e Juba. As Cheias localizadas estão ainda a dificultar a assistência às pessoas mais afectadas pela crise.
Qual é a abordagem da ADRA para responder a esta situação de emergência?
Como resposta a esta situação de emergência, a estratégia da ADRA passa por chegar àqueles que estão inacessíveis e facultar-lhes a resposta imediata que lhes poderá salvar a vida. A ADRA está em parceria com outras ONG locais (Organizações Não Governamentais) em áreas onde o acesso é limitado. A estas ONG locais pertence a Organização de Desenvolvimento Comunitário Somali (Região de Galmudug), a Rede de Acção e Desenvolvimento (Região de Banadir) e a Comunidade Taakulo Somaliland (Regiões de Sool e Sanaag).
Pode partilhar alguma experiência única que tenha vivido durante o trabalho no terreno?
No decorrer desta resposta, eu deparei-me com várias experiências únicas, mas, aquilo que mais me marcou foi a força do povo somali. A seca pode ter dizimado a sua subsistência primária – o gado – mas mesmo assim, eles estão prontos para recomeçar e retomar o seu estilo de vida assim que possível. A necessidade de comida, água e cuidados médicos na região continua a ser preocupante, mas o facto de que um número específico de pessoas pode ser apoiado pela intervenção da ADRA é bastante encorajador.
John Ogege está actualmente a coordenar todos os esforços de ajuda destinada à resposta de emergência à seca na Somália. Ele regressou recentemente de uma distribuição de bens alimentares na região de Banadir na Somália Central – uma das áreas mais afectadas pela seca – e está actualmente a preparar uma viagem à região de Galmudug no Centro-Sul da Somália para avaliar o progresso das actividades em vigor e também para entregar ao comité da WASH (Água, Saneamento e Higiene) um sistema de extracção de água recentemente reabilitado.
A ADRA Portugal está a apoiar esta acção humanitária e já desbloqueou uma verba inicial no valor de 6,000 dólares (cerca de 4.500€), tendo uma conta aberta* para angariação de donativos, que contribuirão para a resposta de emergência das equipas da ADRA que actuam no terreno.
A ADRA é uma organização não-governamental presente em 125 países. Implementa projectos de desenvolvimento comunitário sustentável e socorro em desastres. A ADRA assume o princípio humanitário fundamental de independência, apoiando os seus beneficiários independentemente da associação política ou religiosa, idade, sexo, raça ou etnia.
Em Portugal, a ADRA é uma ONGD registada no IPAD (Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento), é membro da Plataforma Portuguesa das ONGD e é considerada instituição de utilidade pública.
A ADRA Portugal pode ser seguida em Facebook “ADRA Portugal” (em português).
* A ADRA Portugal abriu a conta com o NIB 0046 0017 00600031123 74 para recolher donativos especificamente para a resposta às vítimas desta catástrofe. Os donativos têm uma majoração de 130% nas deduções fiscais. Os comprovativos de depósito ou transferência devem ser enviados para a ADRA com indicação do nome, morada e número de contribuinte para envio do respectivo recibo.